Aula/palestra “Limites do conhecimento psiquiátrico: expansão diagnóstica e cultura terapêutica” — FAMA, 23 de maio de 2026, a convite do Prof. Cristiano.

A psiquiatria tem se apresentado como um campo do conhecimento que se adapta de forma natural ao científico. Ao campo da ciência dura, do laboratório, do ensaio clínico randomizado. Conhecimento esse, que se coloca hoje nos discursos sociais como hierarquicamente superior, neutro e intocado por qualquer contaminação ideológica. Para caber nesse lugar, a psiquiatria, que sempre aspirou a um espaço de validade dentro da medicina, tem se valido de uma transformação da natureza de seu próprio objeto de estudo.

Não podemos nos esquecer de que essa ideia de uma psiquiatria científica, alinhada aos mais altos ideais de uma ciência pura, é antiga. Ela vem desde o nascimento do que poderíamos chamar de modelo médico, ou modelo biomédico.

Dentro dessa tentativa de adequação, é impossível não nos lembrarmos de um passado muito sombrio: teorias etiológicas como a teoria da degeneração, o florescimento de ideias eugênicas, práticas de encarceração em massa, tratamentos que não só eram violentos, mas que carregavam dentro de si desenvolvimentos teóricos fundados em ideais que sustentavam relações de poder, dentro da perspectiva de gênero, de raça, de sexualidade.

Tudo isso sempre teve como seu eixo a ciência. Todo esse passado foi entendido, desenvolvido e justificado pelo avanço da ciência.

Venho aqui condenar a ciência? Claro que não. Venho tentar estabelecer alguns pontos. O primeiro é que dentro da concepção de ciência não está garantida a dimensão da ética. O segundo é a necessidade de sermos responsáveis pelas fundações do conhecimento que aplicamos, sabendo de sua constituição ontológica, epistemológica e ética. Em campos como a psiquiatria, que opera com um objeto abstrato, de difícil definição, que escapa a enquadramentos, a responsabilidade é redobrada. A premissa ética deveria ser muito mais exigida.

Em alguns campos o objeto científico se adequa de forma mais natural, como a física, a bioquímica e algumas áreas da biologia, onde paradigmas são substituídos e isso faz parte do desenvolvimento do campo. Na psiquiatria estamos falando de algo diferente: um objeto que reage à própria classificação. Pouco se importam as galáxias do que pensamos delas. Na psiquiatria, classificar é uma ação que gera reação, e que exerce domínio através da linguagem.

Em outras áreas do conhecimento, uma teoria mal fundada é substituída e o dano é epistemológico. Na psiquiatria, uma teoria mal fundada produz dano concreto em corpos, vidas e populações.

Uma teoria de visão eugênica resulta em esterilização compulsória. Teorias biologicistas, como a gênese bacteriana da loucura, levaram pacientes a serem submetidos à extração de dentes, úteros e intestinos. A concepção do louco como alienado, como aquele que perdeu a razão e com ela o direito à liberdade, forneceu a base teórica para a internação em massa como resposta legítima ao sofrimento psíquico. Mitos científicos, como o do desequilíbrio químico, geraram hipermedicalização.

Isso tampouco é vir aqui corroborar discursos ceticistas, de que a doença mental é um mito. Frase que muitas vezes é retirada de contexto da teoria de Thomas Szasz e tomada como invalidação do sofrimento.

Mas é preciso levar em conta o estatuto ontológico e epistemológico do conhecimento psiquiátrico. Retirar o transtorno psiquiátrico do seu estatuto epistemológico, diga-se de passagem, serve a estruturas de poder social.

Não se condena o DSM por tentar uma classificação dos transtornos, mas por usá-lo de uma forma que não é adequada e que não descreve o que realmente está sendo dito.

Ao descrever em sua última edição mais de 300 transtornos mentais, cujos sintomas pouco se diferenciam de questões usuais das vivências cotidianas ou da dinâmica afetiva humana, essas categorias, divulgadas e instrumentalizadas pela comunicação, se farão por si mesmas.

Se todas as manchetes estampam o transtorno mental como um cérebro em mau funcionamento, isso criará não só um argumento falso no campo das ciências, mas também no campo da política e da sociedade. Assumir que o adoecimento psíquico é uma realidade biológica do indivíduo tem consequências políticas: o apagamento de aspectos violentos de nossa organização social atual, o preço da miséria, da desigualdade, do trabalho sem garantias, da falta de proteção social coletiva, o esgarçamento do tecido social.

A cultura terapêutica está estampada em aproximadamente 20% dos adultos em uso de antidepressivos, no “todo mundo precisa de terapia”, no sono em dia, na comida saudável, na academia performativa. Para justificar tecnicamente tantas intervenções, vemos as fronteiras dos transtornos mentais escorregarem pouco a pouco, da loucura para as pequenas alterações, para quadros que flertam com a normalidade: transtorno bipolar tipo 2, subtipos de transtorno de ansiedade, transtorno desafiador opositor, transtorno de déficit de atenção.

A narrativa é veiculada como progresso científico. Que a psiquiatria está agora trazendo novos olhares para aqueles que antes eram esquecidos. Que não era esquisitice, era um transtorno. Que agora um diagnóstico psiquiátrico pode ser preciso, que se o profissional for capacitado ele fará diagnósticos precisos.

Mesmo com toda a imensa massa de bilhões de dólares gastos em pesquisa sobre saúde mental nas últimas quatro décadas, um diagnóstico psiquiátrico em 2026 segue exatamente a mesma estrutura que ele seguia há 50 anos. Não existem marcadores biológicos que permitam sua distinção objetiva e absoluta. Um diagnóstico psiquiátrico opera hoje no mesmo nível nosológico que a medicina operava em 1800. Apesar de tudo que se diz, ele é um ato valorativo, subjetivo.

Por isso eu quero começar dizendo que a psiquiatria não opera no modelo médico. Ela encena o modelo médico.

Hélio França — CRM-MG 67184 — Psiquiatra RQE 36597