Publicado originalmente em LeiA Colunas | Clube de Leitura Antipsiquiátrica, novembro de 2025.
Antidepressivos são uma classe de medicações psiquiátricas que envolvem diversas substâncias com mecanismos de ações diferentes, mas que no geral atuam sobre receptores ou no metabolismo de monoaminas como noradrenalina, serotonina e dopamina.
Ao contrário de como se pensa, antidepressivos não corrigem um “desequilíbrio químico” no cérebro. Eles são drogas psicoativas que modificam consciência e funcionamento mental. Seus efeitos terapêuticos derivam dessas alterações subjetivas, não da normalização da serotonina ou qualquer outra substância que afete a bioquímica do cérebro.
Essa classe de medicações é prescrita de forma massiva por psiquiatras, neurologistas e outros especialistas médicos. São fármacos simples de serem prescritos, mas interpretar as respostas do paciente a eles costuma ser uma tarefa bem mais desafiadora.
Quando alguém se depara com algo que traz um abalo emocional, alterações psíquicas ou uma vivência de luto, muitos fatores podem alterar o quadro, sejam mudanças no contexto de vida, elaborações, simbolizações, acolhimentos.
A esses fenômenos cabem poucas generalizações, mas é um campo em que, comumente, os médicos superestimam o valor das suas intervenções.
É amplamente divulgado que os antidepressivos não causam dependência ou tolerância. No entanto, a realidade clínica contradiz essa afirmação, pois muitos pacientes enfrentam uma grande dificuldade em descontinuar o uso desses medicamentos, sofrendo sintomas severos ao perderem doses ou interromperem o tratamento de forma abrupta. Antidepressivos estão entre as medicações mais prescritas globalmente, com estudos indicando que até 8% da população adulta no Reino Unido e 16% nos Estados Unidos fazem uso deles.
Se considerarmos a definição original de dependência — “adaptação fisiológica que ocorre quando medicamentos que agem no sistema nervoso central são ingeridos, com sintomas de rebote quando a medicação é abruptamente descontinuada” —, torna-se evidente que os efeitos de difícil manejo dos antidepressivos se encaixam perfeitamente na descrição. Isso contradiz o que é comumente disseminado e sugere que a distinção é mais ideológica do que científica.
O indiscutível é que a retirada dessas medicações por vezes pode causar uma coleção de sintomas extremamente desagradáveis, por vezes de longa duração e frequentemente mais danosa do que o quadro primário que originou o seu uso.
Os sintomas
- Tontura / vertigem;
- Sensações de choque elétrico na cabeça ou no corpo;
- Ansiedade aumentada ou agitação;
- Insônia, distúrbios do sono, sonhos vívidos e despertares noturnos;
- Irritabilidade / labilidade emocional;
- Náuseas ou sintomas gastrointestinais (diarreia, cólicas);
- Fadiga ou letargia;
- Cefaleia (dor de cabeça);
- Sintomas gripais (mialgia, calafrios, mal-estar);
- Alterações cognitivas (dificuldade de concentração, confusão mental, hipersensibilidade a estímulos).
A psiquiatria biológica foi fortemente impulsionada por campanhas da indústria farmacêutica. Nesse contexto, os antidepressivos foram divulgados como fármacos “seguros”, em oposição aos benzodiazepínicos, com a promessa de não causarem dependência e apresentarem poucos riscos ao uso prolongado.
Além disso, o quadro de descontinuação de antidepressivos pode ser de difícil detecção, seja pela postura de negação do psiquiatra, seja pelo aparecimento de sintomas psíquicos que podem ser mal interpretados como recaída do quadro psiquiátrico.
Fatores que dificultam o reconhecimento da síndrome de abstinência de antidepressivos
Conflito de interesses: A maioria dos estudos sobre o uso de medicamentos é financiada pela indústria farmacêutica, que não tem interesse em investigar um problema que poderia prejudicar a imagem de seus produtos.
Confusão de sintomas: Pode ser difícil diferenciar os efeitos psíquicos causados pela descontinuação da substância da simples recaída ou do reaparecimento dos sintomas do transtorno mental.
Prescrições de longo prazo: A orientação para o uso contínuo e prolongado desses medicamentos, mesmo com pouquíssimos estudos comprovando sua eficácia a longo prazo (além das primeiras 4 semanas), aumenta a ocorrência de sintomas de descontinuação e a subsequente dificuldade na retirada da medicação.
Referências
- MONCRIEFF, Joanna. The Myth of the Chemical Cure: A Critique of Psychiatric Drug Treatment. London: Palgrave Macmillan, 2008.
- TIMIMI, Sami. Searching for Normal: A New Approach to Understanding Mental Health, Distress and Neurodiversity. Fern Press, 2025.
- HOROWITZ, Mark; TAYLOR, David M. The Maudsley Deprescribing Guidelines: Antidepressants, Benzodiazepines, Gabapentinoids and Z-drugs. John Wiley & Sons Ltd, 1ª ed.
Hélio França — CRM-MG 67184 — Psiquiatra RQE 36597